Cresce o número de pessoas em Taiwan que buscam treinamento de combate

Cursos com armas airsoft estão entre os mais buscados, preparando os cidadãos para uma eventual invasão do exército da China



Nos últimos meses, na esteira do ataque da Rússia à Ucrânia, tem crescido em Taiwan o temor de uma invasão por tropas da China. Consequentemente, também aumentou na ilha autogovernada a procura por cursos de tiro e manuseio de armas de fogo, de acordo com a agência Reuters.

Devido ao rigoroso controle estatal sobre porte e propriedade de armas de fogo em Taiwan, a população tem buscado principalmente cursos com armas airsoft, que disparam projéteis de plástico. Como a modalidade é considerada um esporte na ilha, está liberada para a população civil.

Diante da possibilidade de que muitos reservistas sejam convocados para lutar em caso de uma guerra, os cursos servem para dar a eles noções básicas. Isso porque muitos movimentos e táticas ensinados são apropriados para casos envolvendo armamento letal.

“Mais e mais pessoas estão vindo para participar”, disse Max Chiang, executivo-chefe da Polar Light, que oferece treinamento militar a civis. Segundo ele, o número de clientes “triplicou ou quadruplicou” desde o início da guerra na Europa, em 24 de fevereiro. Muitas vezes, são pessoas que sequer haviam segurado uma arma antes.

Em seu site, a Polar Light exibe um vídeo que mostra alguns de seus clientes durante o treinamento.

“Eu queria aprender algumas habilidades de combate, incluindo aquelas que não se limitam apenas ao uso de uma arma. Talvez habilidades para poder reagir a qualquer tipo de situação”, disse Su Chun, um tatuador de 39 anos.

Já o guia turístico Chang Yu, que se matriculou em um desses cursos com a mulher, afirmou que “a guerra Ucrânia-Rússia tornou real a ameaça do outro lado do Estreito”, referindo-se à possibilidade de uma invasão em massa por parte das tropas de Beijing. “Isso nos fez pensar como devemos nos preparar se isso acontecer em Taiwan”, afirmou ele.

O governo também tem se movimentado nesse sentido, inclusive com a elaboração de um manual de sobrevivência para orientar seus cidadãos sobre como agir na hipótese de uma invasão no futuro. O “Manual de Defesa Nacional” tem 28 páginas e oferece “uma diretriz de resposta de emergência em uma crise militar ou desastre natural”, segundo o Ministério da Defesa.

“Pense em como você pode ajudar a si mesmo e aos outros a sobreviver”, afirmou Lin Ping-yu, membro do Partido Democrático Progressista. “Estamos enfrentando riscos enormes. Riscos de perder a liberdade e a democracia, de perder tudo em nossa vida cotidiana”, disse ele, que preparou kits de sobrevivência para a família, com suprimentos de emergência para situações extremas.

Por que isso importa?


Taiwan é uma questão territorial sensível para os chineses. Nações estrangeiras que tratem a ilha como autônoma estão, no entendimento de Beijing, em desacordo com o princípio defendido de “Uma Só China“, que também encara Hong Kong como parte do território chinês. Diante da aproximação entre Taipé e Washington, desde 2020 a China endureceu a retórica contra as reivindicações de independência da ilha.

Embora não tenha relações diplomáticas formais com Taiwan, assim como a maioria dos países do mundo, os EUA são o mais importante financiador internacional e principal fornecedor de armas do território, o que causa imenso desgosto a Beijing, que tem adotado uma postura belicista na tentativa de controlar a situação.

Jatos militares chineses passaram a realizar exercícios militares nas regiões limítrofes com Taiwan e habitualmente invadem o espaço aéreo taiwanês, deixando claro que a China não aceitará a independência do território “sem uma guerra“.

O embate, porém, pode não terminar em confronto militar, e sim em um bloqueio total da ilha. É o que apontaram relatórios produzidos pelos EUA e por Taiwan em junho de 2021. O documento taiwanês pontua que Beijing não teria capacidade de lançar uma invasão em grande escala, justamente por se tratar de uma ilha. Já segundo o Pentágono, isso “provavelmente sobrecarregaria as forças armadas chinesas”.

Caso ocorresse, a escalada militar criaria um “risco político e militar significativo” para Beijing. Ainda assim, ambos os relatórios reconhecem que a China é capaz de bloquear Taiwan com cortes dos tráfegos aéreo e naval e das redes de informação. O bloqueio sufocaria a ilha, criando uma reação internacional semelhante àquela que seria causada por uma eventual ação militar.

Originalmente em: A referência
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